No dia 31 de março de 1965, a imprensa pernambucana noticiou que o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes de Alencar, deposto após o golpe militar de 1964, e outros 36 pernambucanos haviam sido enquadrados no artigo 2º, inciso III, da Lei de Segurança Nacional nº 1.802, de 5 de janeiro de 1953, que tratava dos crimes contra o Estado e a ordem política e social.
Entre os investigados estavam três caruaruenses ligados à esquerda e à trajetória política de Miguel Arraes: Abdias Bastos Lé, Aluízio Falcão e Manoel Messias da Silva.
O comerciante Abdias Bastos Lé era presidente do Partido Comunista em Caruaru e havia exercido a direção da Loteria do Estado de Pernambuco durante a administração de Miguel Arraes. Sua atuação política o tornou uma das figuras conhecidas do movimento comunista no município.
Outro nome citado foi o do radialista Aluízio Falcão, que trabalhou como locutor na Rádio Difusora de Caruaru. Ele também participou de campanhas eleitorais de Miguel Arraes, atuando como apresentador de comícios durante as disputas pela Prefeitura do Recife e pelo Governo de Pernambuco.
O terceiro caruaruense mencionado foi Manoel Messias da Silva, uma das principais lideranças da esquerda em Caruaru naquele período. Ele havia atuado como assessor de Miguel Arraes e, após o golpe militar de 1964, foi preso e, segundo relatos históricos, submetido a tortura.
O Inquérito Policial Militar (IPM), conduzido pelo tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima, reuniu 38 volumes de documentos e foi concluído após 240 dias de investigação, em 1965, um ano depois da deposição do presidente João Goulart e da instalação do regime militar no Brasil.
A divulgação da notícia provocou grande repercussão em Caruaru, especialmente pela presença de três nomes ligados à vida política e social do município entre os investigados.
Miguel Arraes de Alencar e Abdias Bastos Lé já faleceram, deixando suas trajetórias registradas na história política pernambucana. Conforme as informações reunidas por Tavares Neto, Aluízio Falcão passou a residir em São Paulo, enquanto o economista Manoel Messias da Silva estabeleceu residência em Olinda.
O episódio representa um registro do período de repressão política que se seguiu ao golpe militar de 1964, quando lideranças políticas, militantes e pessoas ligadas a movimentos de esquerda passaram a ser investigadas e processadas com fundamento na legislação de segurança nacional.

