Em 1964, durante o Golpe Militar, o intelectual caruaruense e advogado Assis Claudino, conhecido como “Cici”, teve o quarteirão onde morava, no Centro de Caruaru, cercado por militares. Para escapar da prisão, foi aconselhado a se disfarçar: vestiu um vestido, colocou peruca, óculos escuros, sapatos de salto alto, pulseira e carregou uma bolsa feminina. Assim, conseguiu fugir para a Vila de Carapotós, onde residiam parentes.

Algum tempo depois, decidiu se apresentar voluntariamente ao quartel do Exército da 22ª CSM, em Caruaru. Foi interrogado pelo capitão Gondim e, segundo relatos, espancado sob a acusação de planejar envenenar a caixa d’água do Morro Bom Jesus, responsável pelo abastecimento da cidade. A acusação nunca foi comprovada. Caso fosse verdadeira, a tragédia atingiria inclusive seus próprios pais e irmãos, que moravam em Caruaru.

Outro nome ligado ao período foi o do hoje economista Manoel Messias, então subsecretário do governador Miguel Arraes de Alencar. Ele foi preso no Recife, conduzido a Caruaru, onde teria sido torturado, e posteriormente transferido para um quartel do Exército, onde cumpriu pena.

O radialista e jornalista caruaruense Souza Pepeu também sofreu sanções. Em 1963, foi candidato a vereador em Caruaru, ficando na segunda suplência. Após o golpe, teve o mandato cassado pela Câmara Municipal. Já residindo no Rio de Janeiro, onde trabalhava no Ministério da Indústria e Comércio, foi demitido do serviço público federal com base no Ato Institucional nº 2, tornando-se inelegível. Anistiado em 1979, formou-se em Direito e, posteriormente, foi eleito vereador em Caruaru.

O comerciante Abdias Bastos Lé, presidente do Partido Comunista em Caruaru, dirigia a Loteria do Estado de Pernambuco na cota destinada ao partido. Era acusado de incentivar trabalhadores rurais a promover greves — acusação que também nunca foi comprovada. Tido como amigo pessoal do governador Miguel Arraes de Alencar, recebia frequentemente em sua residência, em Caruaru, o líder comunista Gregório Bezerra, que costumava almoçar em sua casa e elogiar o cardápio regional.

O cirurgião-dentista Fernando Soares foi preso em Caruaru por um sargento do Exército identificado como Laércio. Conduzido por um capitão e sentinelas armados até um quartel no Recife, foi acusado de ser comunista após a apreensão, em sua residência, de uma coleção de livros do escritor baiano Jorge Amado.

Durante o período em que esteve preso, Fernando Soares murmurava versos de um poema de Vinicius de Moraes sobre o fuzilamento do poeta espanhol Federico García Lorca, em Granada:

“Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior o seu martírio
Que tortura da carne.
Hoje sei que tive medo
Mas sei que não foi covarde.
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava.
Como quem diz: A morte é sempre desagradável.
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.”