Em 1963, o comerciante Abdias Bastos Lé, então presidente do Partido Comunista em Caruaru, concedeu entrevista ao jornalista e radialista Sousa Pepeu, na Rádio Cultura do Nordeste, para falar sobre a circulação e o lançamento de livros de autores ligados ao pensamento de esquerda.

Entre as obras comercializadas estavam livros de autores como Howard Fast, Karl Marx, Vladimir Lenin, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Parte dessas publicações era vendida na Barraca de Revistas Yuri Gagarin, ligada ao Partido Comunista e instalada na Rua da Matriz, no Centro de Caruaru. Posteriormente, a barraca foi incendiada em meio ao ambiente de forte polarização política que antecedeu o golpe militar de 1964.

Outro personagem ligado à comercialização dessas obras era Severino Ferreira, conhecido como Biu Moscouzinho, que percorria residências de Caruaru oferecendo os livros. Na época, o deputado estadual Drayton Nejaim, da União Democrática Nacional (UDN) e uma das principais lideranças conservadoras da região, chegou a pedir publicamente aos pais de família que não comprassem as publicações consideradas de esquerda.

Após o golpe militar de 1964, Abdias Lé e Biu Moscouzinho foram presos. O jornalista Sousa Pepeu, por sua vez, deixou Caruaru e seguiu para o Rio de Janeiro. Anos depois, durante o endurecimento do regime militar, também foi atingido por medidas políticas decorrentes do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Na época, Sousa Pepeu era suplente de vereador em Caruaru.

O professor Luiz Pessoa, fundador do Colégio Caruaru — posteriormente denominado Colégio Diocesano — e primeiro diretor da Faculdade de Filosofia de Caruaru (Fafica), instituição ligada à Diocese de Caruaru, também se posicionava de forma crítica em relação aos autores e às publicações de esquerda que circulavam na cidade.

Segundo relatos da época, Luiz Pessoa evitava inclusive passar pelas imediações da Barraca de Revistas Yuri Gagarin, localizada na Rua da Matriz. O episódio retrata o clima de intensa disputa ideológica vivido em Caruaru no início da década de 1960, período marcado pelo acirramento das tensões políticas que antecederam o golpe militar de 1964.