Durante o regime militar no Brasil, diversos caruaruenses foram presos, cassados ou punidos sob acusação de ligação com o comunismo ou de participação em movimentos considerados subversivos pelas autoridades da época. Décadas depois, parte desses nomes foi reconhecida oficialmente como vítima de perseguição política e indenizada com base na legislação de reparação aprovada em Pernambuco.

Um dos casos registrados em Caruaru foi o de Abdias Pinheiro da Silva, funcionário público federal da antiga Sucam. Em 1964, ele foi preso e levado ao Recife, onde permaneceu detido por 60 dias, acusado de ser comunista e de integrar o chamado Clube dos Onze, movimento idealizado por Leonel Brizola no período que antecedeu o golpe militar.

Segundo relatos da época, durante a prisão nada foi encontrado em sua residência que comprovasse atividade política de esquerda. Em vez de material ideológico, havia apenas exemplares da Bíblia Sagrada. Protestante, Abdias Pinheiro era um homem de fé evangélica, característica que marcou sua trajetória pessoal. Durante o período em que esteve preso em um quartel do Exército, no Recife, pediu para permanecer com uma Bíblia e passou os dias de detenção realizando leituras em voz alta de capítulos e versículos.

Anos depois, já no período de reorganização política do país, Abdias Pinheiro da Silva filiou-se ao MDB e foi eleito vereador de Caruaru, em 1969. Na Câmara Municipal, chegou a exercer a liderança do governo do então prefeito Anastácio Rodrigues. À época, os vereadores ainda não recebiam subsídios, por determinação da Justiça Eleitoral.

Com a promulgação da Lei Estadual nº 11.773, de 23 de maio de 2000, o Governo de Pernambuco passou a reconhecer e indenizar presos políticos perseguidos durante o regime militar. Abdias Pinheiro da Silva foi um dos beneficiados.

Outro nome reconhecido foi o de Manoel Messias, preso e torturado em um quartel do Exército em Caruaru. Também recebeu indenização do Estado pelos danos sofridos durante o período de repressão.

O cirurgião-dentista Fernando Soares também foi preso em Caruaru, acusado de ligação com o comunismo. A acusação, no entanto, não foi comprovada. Fernando participou do Movimento de Cultura Popular, iniciativa ligada ao governo de Miguel Arraes, de quem era admirador. Posteriormente, também requereu reparação e foi indenizado.

O advogado Francisco de Assis Claudino, conhecido como Cici, foi outro caruaruense perseguido durante o regime militar. Preso e torturado em um quartel do Exército em Caruaru, também não teve comprovada qualquer vinculação com o comunismo. Mais tarde, foi reconhecido como perseguido político e indenizado.

Entre os casos mais emblemáticos está o de Marcelo Mário Melo, escritor e jornalista caruaruense, que assumidamente militava no campo da esquerda. Preso durante o regime, passou oito anos, 43 dias e 19 horas detido, parte desse período na Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá. Marcelo Mário também foi indenizado e atualmente reside no Recife.

Marcelo era filho de José Ferreira de Melo, proprietário do antigo Hotel Fortuna, em Caruaru, e de Clarisse Teixeira de Melo, parente da família Lyra. Sua trajetória tornou-se uma das mais conhecidas entre os caruaruenses atingidos pela repressão política.

Outro nome de destaque foi o do advogado Arsênio Martins Gomes. Após sua morte, a viúva, Maria Luiza de Godoy Bené, solicitou a indenização a que ele tinha direito por perseguição política sofrida durante o regime.

O intelectual e comerciante Abdias Bastos Lé, que presidiu o Partido Comunista em Caruaru, também foi indenizado. Figura histórica da militância de esquerda no município, Abdias Lé teve papel importante na reorganização política local após a redemocratização. Foi dele, inclusive, a iniciativa de buscar reparação para Ernesto do Colchão, apontado como um dos comunistas mais antigos de Caruaru, localizado em São Paulo com ajuda de Demóstenes Félix da Silva.

Outro nome de relevância política em Caruaru foi o jornalista Celso Rodrigues, vereador por dois mandatos e duas vezes presidente da Câmara Municipal. Celso chegou a disputar a Prefeitura de Caruaru e também foi preso durante o regime, acusado de ligação com o comunismo. A acusação, porém, não foi comprovada. Era conhecido por sua proximidade com o ex-presidente João Goulart.

O jornalista e ex-vereador Souza Pepeu também esteve entre os punidos pelo regime. Quando ainda era suplente de vereador e funcionário do Ministério da Indústria e Comércio, sofreu sanções com base em atos institucionais e, posteriormente, também foi indenizado.

Entre os políticos de Caruaru atingidos pela repressão, um dos casos mais lembrados é o de Severino Rodrigues Sobrinho, o “Chico do Leite”. Vice-prefeito e vereador, ele foi cassado com base no Ato Institucional nº 5, acusado de ligação com o comunismo. Sua defesa chegou a ser feita publicamente pelo sociólogo Gilberto Freyre, mas a cassação foi mantida. Chico do Leite morreu em 1988, aos 64 anos, antes de ser alcançado pelos efeitos da anistia.

Com a redemocratização e a legalização do Partido Comunista Brasileiro, já no governo José Sarney, Abdias Bastos Lé voltou a reunir militantes e simpatizantes em sua chácara, na localidade de Terra Vermelha, zona rural de Caruaru, em encontros de confraternização e reorganização política.

Seu filho, o empresário Luiz Carlos Lé, preserva parte do acervo histórico e bibliográfico deixado pelo pai. Em reconhecimento à importância de Abdias Bastos Lé para a história política e intelectual de Caruaru, está prevista a instalação de um busto em sua homenagem nas imediações da Catedral, no Centro da cidade, próximo ao local onde funcionou a antiga banca de revistas Yuri Gagarin, na Rua da Matriz, que era de propriedade de Abdias Lé. O espaço tornou-se símbolo de resistência política e cultural em um dos períodos mais tensos da história brasileira.

Fotos: arquivo pessoal.
Foto: internet.
Foto: arquivo de amigos.
Foto: arquivo de amigos.
Foto: internet.