Hoje vamos relembrar a história de João Belmiro, conhecido como João Belmiroff, uma figura folclórica e marcante da vida política e boêmia de Caruaru.
Boêmio incorrigível, João Belmiro era presença constante nos bares da cidade. Bebia bastante, tinha a vodka como sua bebida preferida — em referência à Rússia — e fumava com elegância, sempre com o cigarro entre os dedos e seu jeito peculiar de cruzar as pernas nas cadeiras das mesas. Virava noites, principalmente nos bares do antigo Cabaré da Rua Almirante Barroso e no Clube Night. Uma vez por mês, apreciava também um charuto cubano.
Admirador declarado de líderes e pensadores da esquerda mundial, elogiava figuras como Lênin, Stálin, Gregório Bezerra, Luiz Carlos Prestes, Francisco Julião, Fidel Castro e Che Guevara. Suas opiniões eram fortes e, muitas vezes, polêmicas para a época. Defendia o direito ao divórcio, o uso de anticoncepcionais e era favorável à legalização do aborto — posições consideradas ousadas e provocativas na conservadora Caruaru de então.
João Belmiro costumava criticar os comerciantes locais, dizendo que muitos não tinham o hábito da leitura e preferiam apenas os gibis vendidos na porta do Cine Teatro Caruaru. Em contrapartida, elogiava Abdias Lé, comerciante e presidente do Partido Comunista na cidade, a quem admirava pelo interesse na literatura comunista.
Também não poupava críticas à sociedade conservadora caruaruense e ao primeiro bispo diocesano de Caruaru, Dom Paulo Hipólito de Souza Libório, que mantinha um programa na Rádio Difusora de Caruaru no qual frequentemente se posicionava contra o comunismo.
Com o Golpe Militar de 1964, João Belmiro foi aposentado precocemente da Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco, em razão de suas posições políticas.
Seu jeito irreverente de falar e de se comportar nos bares acabou virando marca registrada, sendo imitado com perfeição pelo advogado Arsênio Martins Gomes e pelo autor teatral e compositor Carlos Fernando.
A figura de João Belmiro também ganhou espaço na literatura. O jornalista Sebastião Nery, em seu livro Folclore Político, registrou episódios curiosos sobre ele. O advogado Fernando Monteiro, em suas memórias sobre Caruaru, relembra várias de suas histórias. Já o médico Luiz Carlos Lins escreveu o livro “Belmiroff: um certo sonhador de Caruaru”, dedicado à sua trajetória.
O jornal Diário da Noite, do Recife, frequentemente destacava suas tiradas políticas. Quando o cosmonauta Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a viajar pelo espaço, João Belmiro comemorava em alto e bom som, afirmando que a União Soviética havia superado os Estados Unidos. Conta-se que, certa vez, ao ser perguntado por uma amiga sobre que nome dar ao filho recém-nascido, respondeu prontamente: “Yuri Gagarin, que esse nome vai entrar para a história.”
João Belmiro também era lembrado pelo ex-governador Miguel Arraes de Alencar sempre que visitava Caruaru. Após sua morte, recebeu homenagem do jornalista Souza Pepeu na Rádio Cultura do Nordeste, em reconhecimento à sua personalidade marcante e ao papel que desempenhou no imaginário político e cultural da cidade.
Figura irreverente, provocadora e ao mesmo tempo carismática, João Belmiro permanece na memória de Caruaru como um símbolo de resistência, boemia e paixão pela política.
